Disfunções…iii

E estava eu, a percorrer as maravilhosas ruas desta cidade. Quando encontrei um excelente muro para me sentar. É que para além de ler, eu adoro observar as pessoas a andar. Gosto de ver a maneira como interagem com o mundo. Poderão pensar que eu sou um voyuer. Quer dizer, eu acho que não o sou, mas quem sabe. E estando eu a ver uma menina de preto, com um penteado bastante original, umas pulseiras bastante coloridas e maquilhagem, que em peso bruto deve rondar os dois quilos (onde é que eu já vi isto?), a passar. De repente, olho para o lado, era a praça toda a olhar para ela! Será isto preconceito ? Ou apenas curiosidade ? Da minha parte, acho que era apenas curiosidade porque eu não formulei nenhum juízo de valor sobre a rapariga, mas e os outros ? Oh, pensei eu, deixa de viver em função dos outros. As pessoas, gostam de avaliar, criticar, gozar, achar-se acima de. Quando eu digo pessoas, involuntariamente, refiro-me à sociedade. Claro que eu não posso criticar a sociedade, sem antes me criticar a mim. Sendo eu parte integral dela. Posso é não aceitar os preconceitos, que ela crava em mim.

~ por Jorge da Silva Santos em Junho 23, 2008.

6 Respostas to “Disfunções…iii”

  1. Mesmo inconscientemente temos entranhado em nós preconceitos que só muito atentamente conseguimos reparar.

  2. Sim, há preconceitos que muito dificilmente não nos influenciam. E digo isto porquê ? Porque mesmo não sendo preconceituosos em relação a determinado tema, muitas vezes involuntariamente, pensamos no preconceito. Poderão dizer:

    Ah, pensaste no preconceito, lá bem no fundo és preconceituoso.

    Por exemplo :

    Um homem violou duas crianças inocentes.

    No momento de menos temperança penso: “Porra era de lhe dar dois tiros “. Isto faz de mim assassino ? Eu acho, que o que faz a diferença é no momento da decisão. Obviamente, se estivesse frente a frente com o homem, não lhe faria nada. O escolhermos X ou Y, é o que faz de nós X ou Y. :)

  3. Bem, e logo em Braga… está mais que óbvio que é isso que vai acontecer, em situações semelhantes. Podia escrever aqui muita coisa que me desagrada na cidade, mas acho que não vale a pena, até porque, ao mesmo tempo, é um sítio de que gosto muito. Só que é evidente que, num lugar onde as pessoas estão habituadas a obedecer a uma infinidade de códigos, a reacção perante alguém – tão – diferente será o choque.

  4. Sim, mas “choque” implica preconceito? Até porque eu entrei em choque, mas acho que não fui preconceituoso.

  5. Ah…esta fotografia já é diferente, assim aqui a alfacinha já pode confirmar que era mesmo Braga… uma das quatro cidades do Norte de que mais gosto (a par de Guimarães, de Ponte de Lima e do Porto).
    O facto de me chocar com alguma coisa significa que isso foi contra aquilo a que estou habituada, portanto que foge ao meu “código de normalidade” de imagens ou ideias, e sobre a qual provávelmente até nem teria formado nenhum juízo de valor. Agora a partir daí, se voltasse a presenciar o mesmo, já poderia ter formado algum conceito, com base por exemplo em opiniões ou “impressões” alheias sem muito fundamento, e então perdia a surpresa por já ter uma ideia formada, ou mal formada, um preconceito em relação ao que via.
    Muitas vezes é difícil conseguir distinguir se realmente a ideia que temos de algo é pré-concebida, sem um verdadeiro fundamento, ou uma opinião legítima. Outras vezes somos levados a ter os mesmos preconceitos do grupo social onde nos inserimos, ou podemos criar preconceitos por diversas razões.

  6. Ah Ponte de Lima, excelente terra. Pois, a primeira impressão, poderá ser ou não preconceito. Agora a segunda vez se ficarmos chocados é preconceito. Da segunda vez, não podemos justificar que foi surpresa, senão não era segunda e sim primeira. Mas preconceitos, grande parte dos que temos, são sempre inseridos em nós por parte da família/sociedade. Grande parte das vezes, as pessoas não ficam com preconceito sobre algo por ter vivido esse algo, mas sim por influência da vivência de outros. Por isso digo:

    Antes de “apontar o dedo” a alguém, pensemos um bocado. Muito provavelmente o preconceito que temos nem é nosso, mas sim de outra pessoa que o impôs em nós.

    P.S: Uma frase que eu vi há bocado e adorei :

    Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito. – Albert Einstein

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