Disfunções…iii

E estava eu, a percorrer as maravilhosas ruas desta cidade. Quando encontrei um excelente muro para me sentar. É que para além de ler, eu adoro observar as pessoas a andar. Gosto de ver a maneira como interagem com o mundo. Poderão pensar que eu sou um voyuer. Quer dizer, eu acho que não o sou, mas quem sabe. E estando eu a ver uma menina de preto, com um penteado bastante original, umas pulseiras bastante coloridas e maquilhagem, que em peso bruto deve rondar os dois quilos (onde é que eu já vi isto?), a passar. De repente, olho para o lado, era a praça toda a olhar para ela! Será isto preconceito ? Ou apenas curiosidade ? Da minha parte, acho que era apenas curiosidade porque eu não formulei nenhum juízo de valor sobre a rapariga, mas e os outros ? Oh, pensei eu, deixa de viver em função dos outros. As pessoas, gostam de avaliar, criticar, gozar, achar-se acima de. Quando eu digo pessoas, involuntariamente, refiro-me à sociedade. Claro que eu não posso criticar a sociedade, sem antes me criticar a mim. Sendo eu parte integral dela. Posso é não aceitar os preconceitos, que ela crava em mim.


Mesmo inconscientemente temos entranhado em nós preconceitos que só muito atentamente conseguimos reparar.
Sim, há preconceitos que muito dificilmente não nos influenciam. E digo isto porquê ? Porque mesmo não sendo preconceituosos em relação a determinado tema, muitas vezes involuntariamente, pensamos no preconceito. Poderão dizer:
Por exemplo :
No momento de menos temperança penso: “Porra era de lhe dar dois tiros “. Isto faz de mim assassino ? Eu acho, que o que faz a diferença é no momento da decisão. Obviamente, se estivesse frente a frente com o homem, não lhe faria nada. O escolhermos X ou Y, é o que faz de nós X ou Y.
Bem, e logo em Braga… está mais que óbvio que é isso que vai acontecer, em situações semelhantes. Podia escrever aqui muita coisa que me desagrada na cidade, mas acho que não vale a pena, até porque, ao mesmo tempo, é um sítio de que gosto muito. Só que é evidente que, num lugar onde as pessoas estão habituadas a obedecer a uma infinidade de códigos, a reacção perante alguém – tão – diferente será o choque.
Sim, mas “choque” implica preconceito? Até porque eu entrei em choque, mas acho que não fui preconceituoso.
Ah…esta fotografia já é diferente, assim aqui a alfacinha já pode confirmar que era mesmo Braga… uma das quatro cidades do Norte de que mais gosto (a par de Guimarães, de Ponte de Lima e do Porto).
O facto de me chocar com alguma coisa significa que isso foi contra aquilo a que estou habituada, portanto que foge ao meu “código de normalidade” de imagens ou ideias, e sobre a qual provávelmente até nem teria formado nenhum juízo de valor. Agora a partir daí, se voltasse a presenciar o mesmo, já poderia ter formado algum conceito, com base por exemplo em opiniões ou “impressões” alheias sem muito fundamento, e então perdia a surpresa por já ter uma ideia formada, ou mal formada, um preconceito em relação ao que via.
Muitas vezes é difícil conseguir distinguir se realmente a ideia que temos de algo é pré-concebida, sem um verdadeiro fundamento, ou uma opinião legítima. Outras vezes somos levados a ter os mesmos preconceitos do grupo social onde nos inserimos, ou podemos criar preconceitos por diversas razões.
Ah Ponte de Lima, excelente terra. Pois, a primeira impressão, poderá ser ou não preconceito. Agora a segunda vez se ficarmos chocados é preconceito. Da segunda vez, não podemos justificar que foi surpresa, senão não era segunda e sim primeira. Mas preconceitos, grande parte dos que temos, são sempre inseridos em nós por parte da família/sociedade. Grande parte das vezes, as pessoas não ficam com preconceito sobre algo por ter vivido esse algo, mas sim por influência da vivência de outros. Por isso digo:
P.S: Uma frase que eu vi há bocado e adorei :