Devaneios…vii

Filósofo em Meditação, óleo de Rembrandt.
Um excerto que eu já queria pôr aqui, há já algum tempo. Pela sua beleza, mas principalmente pelo que nos tenta transmitir. Fica aqui então, um pedaço do Discurso do Método de Descartes:
A minha terceira máxima era procurar sempre antes vencer-me a mim próprio do que vencer a fortuna e modificar antes os meus desejos do que a ordem do mundo; e, geralmente, habituar-me a nada acreditar que, afora os nossos pensamentos, nada há que esteja, inteiramente em nosso poder, de maneira que depois de ter procedido o melhor possível, em relação às coisas que nos são exteriores, tudo o que impede que sejamos bem-sucedidos é, em relação a nós, absolutamente impossível.
Pois como a nossa vontade naturalmente só deseja as coisas que o entendimento lhe apresenta de algum modo como possíveis, é certo que, se considerarmos todos os bens que estão fora de nós como igualmente afastados do nosso poder, não lastimaremos mais a falta dos que parecem dever-se ao nascimento, quando deles privados sem nossa culpa, do que lastimamos por não possuirmos os remos da China ou do México; e que, fazendo, como se costuma dizer, da necessidade virtude, não desejaremos mais ter saúde, quando doentes, ou ser livres, quando prisioneiros; do que desejamos agora ter corpos de matéria tão pouco corruptível como os diamantes, ou asas para voar como as aves.


É bem bonito sem dúvida, só que Descartes era racionalista…tudo lhe parecia poder ser filtrado pela dita razão… Penso que, se calhar, Descartes, aspirava a muito…a nossa vontade naturalmente deseja as coisas que NÃO são possíveis ou, pelo menos, muito pouco viáveis. E é por isso mesmo que nos lastimamos…como Calígula, só queremos a Lua, qualquer coisa de impossível…
Parece-me que filtrar TUDO, para mim e para já, seja impossível. Mas defendo, à semelhança de Descartes, o racionalismo. Apesar de considerar que é extremamente difícil desligar-me de sentimentos, preconceitos, sociedade, etc etc.