A ética e o compromisso com a ambição pessoal

O Homem é um ser insaciável.

A maioria de nós tem sonhos e ambições pessoais, que facilmente colidem com os sonhos e ambições de outrem. O mesmo se aplica às ambições colectivas. Eu quero apenas partilhar a minha perspectiva sobre estas questões do domínio da ética e das relações humanas.

Em primeiro lugar separo a ética e a moral da religião. Isto não se deve a qualquer aversão ás religiões, mas ao contrário do que diz muita gente, que eu respeito, penso que os padrões éticos pessoais não tem necessariamente de ter um carácter religioso, mas na nossa educação e experiência pessoal, bem como a inteligência. A religião tende a justificar a ética com princípios dogmáticos e acções aprovadas por um qualquer ente superior. Embora a frase constantemente repetida por Cristo:

amar o nosso semelhante como a nós mesmos.

tenha para mim um significado profundo e não apenas aquele que transparece numa leitura superficial.

Como devemos encarar a ética: universal ou perspectiva pessoal? Parece-me que salvaguardar os interesses pessoais carece sempre de uma análise do ponto de vista exterior, não podem contar mais do que os interesses de outra pessoa, logo uma perspectiva universal é a mais correcta. Não digo que devemos ser absolutamente altruístas e qualquer decisão quotidiana que tomemos seja objecto de uma ponderação profunda, se eticamente irá ser correcta. Por exemplo, se formos ao supermercado, escolhemos as melhores laranjas e não escolhemos as piores para que alguém não fique prejudicado.

Age apenas segundo máximas que possas ao mesmo tempo querer que se tornem leis universais. Kant

Imagine-se que uma pessoa pretende subir na carreira profissional, mas esse lugar é concorrido por outrem, alguém que precise mais de dinheiro, seja mais carenciado. Será eticamente correcto tomar esse lugar, mesmo estando bem na vida e um salário melhor é apenas um acréscimo para passar umas férias mais extravagantes? Ao invés de alguém que tenha da pagar as prestações da casa e as despesas escolares do filhos. Se esse lugar for conquistado com mérito, impõe-se aqui alguma questão ética? Eu penso que não. O mérito pessoal seja fruto de talento natural ou trabalho árduo deve ser recompensado, se assim não fosse estaríamos a promover a preguiça e o desleixo, pois as pessoas não precisariam de se esforçar para obter o que querem. Por outro lado, não estaríamos a nivelar a riqueza e diminuindo o fosso entre pobres e ricos? Para haver pessoas muito ricas, tem de haver muitas outras muito mais pobres, é uma questão de equilíbrio. Para abordar esta questão recomendo a leitura de Marx e Engels.

Mas será que o mérito é suficiente para conquistar o que se pretende? Definitivamente não. Na minha opinião a questão proeminente é a igualdade de oportunidades. Veja-se a diferença entre a Europa e a África. Um rapaz de classe média na Holanda tem direito a um ensino que lhe permite um emprego e uma vida de qualidade. Mas outro rapaz que nasça na Serra Leoa, filho de agricultores e na escola tem de escrever no chão, tem muita sorte em não morrer de fome ou pisar uma mina…Como é que estas pessoas aplicam as suas capacidades? Como podemos defender valores de ética universal se esta situação é a regra e não a excepção? O que podemos fazer? Vamos abdicar do nosso conforto pessoal para que outros mais carecidos vivam melhor ou continuar a viver sem pensar muito nisso e sentir desconforto e pena sempre que somos confrontados com essas situações? Parece-me uma questão muito complexa, e não pode ser analisada de uma perspectiva simplista. Caso contrário, gastar dinheiro em jóias em vez de o doar a uma instituição que ajuda vítimas de fome e estas venham a morrer por falta de alimento, poderia ser o equivalente moral do homicídio. Parece-me uma conclusão precipitada.

Apesar de tudo, muito se terá de fazer para que as pessoas tenham igualdade de oportunidades. Não é uma utopia, não significa que deixe de haver pobres e passamos a ser todos muito felizes, apenas devemos todos ter oportunidades.

Posso ter divagado um pouco, mas a ética pessoal deve ser alargada. Não matar não chega, é preciso não deixar morrer…

~ por Pedro Araújo em Julho 9, 2008.

8 Respostas to “A ética e o compromisso com a ambição pessoal”

  1. Caso contrário, gastar dinheiro em jóias em vez de o doar a uma instituição que ajuda vítimas de fome e estas venham a morrer por falta de alimento, poderia ser o equivalente moral do homicídio.

    Discordo, é algo que não está directamente dependente de ti. Podes perfeitamente, doar esse dinheiro e a pessoa encarregue dele, ficar com ele e fugir, no final as crianças morriam. Serias dependente então da sua morte, por não teres doado mais dinheiro? Não tem grande lógica. Da mesma maneira, até que ponto é que tu podes doar ? Por mais 5 euros, não vais morrer e poderás estar a salvar uma vida. E por mais 5 e mais 5 e mais 5. Se tu procuras equilíbrio, de certeza que equilibrar o mundo e desequilibrares-te não faz sentido. Apesar, de concordar contigo no alargamento da ética moral, esta, deve ser feita com ponderação. E o facto de tu teres tido mais oportunidades na vida que outro, não faz de ti um ser pior, ou melhor, simplesmente tiveste mais sorte. É realmente, uma questão complicada de analisar, porque envolve um sem número de variáveis.

  2. Mas é exactamente isso que eu digo. Podemos fazer melhor sem ter que empobrecer para salvar o mundo. A frase que tu citaste eu usei-a para realçar a complexidade da questão.
    Dizes que podem fugir com o dinheiro doado?Pois podem claro. E digo mais, mesmo que o dinheiro seja utilizado correctamente, nunca saberemos se estamos a salvar alguém, mas sempre é melhor do que não o fazer.

    Muita coisa se pode dizer sobre isto, é uma discussão muito abrangente. Mas eu apenas quis transmitir uma ideia pessoal. Porque não falta literatura sobre isto. Acções é que já não são tantas! :D

  3. Agora disseste tudo. Fala-se muito, discute-se. O problema, é posto em cima da mesa e até se arranjam grandes soluções. Mas “acção” está quito.

  4. Em primeiro lugar acho que a ética é algo que directa ou indirectamente está entranhado em cada um de nós, enquanto individuo, e alguns abdicam dos seus valores para progredir, porque a necessidade de dinheiro e de poder é algo que os ultrapassa, é algo que precisam para “respirar”. Enquanto outras pessoas, não abdicam dos seus valores éticos para progredir e só aceitam as progressões se forem merecidas por mérito!
    Em segundo lugar acho que a ética não se pode generalizar à escala mundial, porque enquanto que cá teres comida em cima da mesa a todas as refeições, teres a despensa e o frigorifico cheio é uma certeza, ou pelo menos para algumas familias, em África se conseguires comer uma colher de arroz já te darás por feliz… não sendo os padroes identicos, mais facilmente enquanto pessoa aceitarias que um puto em África roubasse um pão para comer, do que um puto cá roubar um jogo para a consola. Não sei se me estou a fazer entender. é Obviu de que nenhum deles é ético, mas roubar para comer, porque é uma necessidade básica é compreensivel e desculpavel (embora em alguns países dê direito a uma mão cortada), mas roubar pela prazer de possuir uma coisa isso sim considero que não é ético.
    como tal, acho que a ética depende do caso prático.
    A realidade de um país faz com que as coisas possam ser éticas ou não, bem como as necessidades pelo qual a pessoa está a passar.

    (isto já vai aqui uma granda caldeirada de ideias, mas tou com uma dor de cabeça desde ontem :S )

  5. Ana, não achas que é perigoso relativizar a ética aos costumes enraizados? Em certos países africanos é praticada a mutilação genital feminina, podemos aceitar isto porque os padrões culturais ocidentais e africanos não são idênticos?
    Eu também aceito que uma criança roube para comer em qualquer lado, caso tenha necessidade. O que não aceito é que as crianças precisem disso.
    Eu defendo a ética universal, independentemente dos costumes, é necessário respeita-los, mas a sociedade que se perspectiva no futuro, sem fronteiras, não se coaduna com relativizações éticas. Mas claro, a ética não é taxativa, é necessário compreender os costumes e moral das diferentes culturas, mas não me parece sustentável esta situação de desigualdade e relativização ética em que vivemos.
    Obrigado pelo teu comentário, Ana. É sempre agradável discutir estas questões. ;)

  6. Éticas, morais, religiões e luxos… Ao tempo que não falo sobre estas coisas dentro de um mesmo contexto…

    Vejamos, acerca da separação das águas, muito correcto na minha opinião. A religião apoia-se em vários aspectos da vida, entre eles a moral e a ética, mas não deve necessariamente ser associada aos mesmos.

    Sobre as doações, é um assunto que me deixa sempre a pensar. Após sair das minhas mãos, o meu rico dinheirinho segue um caminho que eu não sei qual é. Mesmo que atinja o destino físico que me prometeram, como vai ser usado? De que forma é aplicado? Para comprar umas mandiocas? Para apoiar uma escola? Apoio a técnicas agrícolas mais avançadas para que se tornem mais auto suficientes? Ou é encaminhado para os bolsos do tirano local, que o vai usar para oprimir mais ainda os desgraçados que já nem esperança têm?

    Enviar recursos sem saber para onde vão nem como serão usados pode ainda trazer mais sofrimento do que aquele que já enfrentam, e seria moral e éticamente errado. Já não é correcto apenas pela simples existência de tal possibilidade. E as boas intenções não chegam, se isso apenas serve para nos sentir-mos bem, uns tipos fixes que até deixam de comer um sorvete na esplanada para dar esse dinheiro a quem tem carências. Não é assunto fácil, pois não?

    Após tantos anos de doações e perdões de dívidas, não é de estranhar que os países africanos mais pobres nunca tenham passado da cepa torta? África continua a ser a grande reserva de recursos do mundo, e pouco interessa que seja auto suficiente, apesar de que se quisesse, poderia sê-lo. Não lhe faltam riquezas. Os ditadores que lá vivem, para terem uma cadeira confortável onde sentar a peida, venderam os direitos sobre as terras e os povos. Nem vale a pena falar de ética nem moral com estes, que são os grandes tiranos, e os que realmente fazem abater grandes males sobre os seus povos.

    Gostei de ver abordado o tema dos artigos de luxo. Meus caros, pelo facto de um artigo custar uma pipa de massa não significa que seja nojento adquiri-lo. Esse pensamento é limitado, possivelmente obscurecido pelo desejo de ajudar os mais necessitados, mas não temos o direito de prejudicar uns para ajudar outros. A simples existência de um iate implica o trabalho de muita gente, que teve de desenvolver as suas capacidades para poder ganhar a vida e ter algum conforto. Muitos não ganharão enormidades de dinheiro, mas poderão pagar as suas casas, ter um carro, talvez uma empregada doméstica, colocar os filhos numa escola, encher a despensa,… Quantas pessoas trabalharam na casa, a desenhar, projectar e construir o carro, os professores e funcionários das escolas, os agricultores e pescadores que trabalharam para podermos encher as despensas, as empregadas domésticas que sem alguém que as contratasse, não teriam como se sustentar…

    E toda esta distribuição de riqueza veio de onde? De um endinheirado que comprou um iate. Quantas famílias poderiam ser alimentadas durante um ano em África com o mesmo dinheiro? Sairiam da sua miséria? Não creio, não está instituído que tal possa acontecer. Quantas vidas complicaríamos? Muitas. Se nivelarmos tudo por baixo, qualquer dia temos pedintes a pedir aos pedintes.

    Transformamos o mundo numa grande África. Respondendo antecipadamente a quem possa achar que é uma grande ideia, não é. Não temos forma de sustentar 6 biliões de pessoas em regime de subsistência. Hoje pode haver desperdício porque não se torna compensatório enviar alimento para onde faz mais falta, e também para manter os preços em alta, mas o inverso desta realidade é ter o mundo inteiro a passar fome, a morrer de doença, porque a única coisa que sustenta as sociedades modernas é a procura do conforto, para o qual necessitamos de dinheiro.

    Temos uma crise crescente sim, mas o pior não está no petróleo nem na fome. Está sim num défice ético, na falta de regulamentação e na confiança excessiva de que todos são boas pessoas. Se todos são boas pessoas, então não há mal em ter leis e aplicá-las, porque só involuntáriamente é que as pessoas as violarão. Na práctica, sabemos que há quem seja pago principescamente para contornar as leis, aproveitando todos os buracos que a mesma exiba. É contra esses e quem os contrata que temos de abrir a pestana e tomar medidas.

  7. Realmente a situação actual em África, apesar das ajudas internacionais e perdões de dívidas continua degradante. É uma questão complexa, certamente é devido aos tiranos que governam em certos países (e continuam a ser eleitos, de uma forma ou de outra), mas também a atitude colonizadora de muitos países europeus é responsável por esta situação. É preciso muita boa vontade para ajudar a montar estruturas que criem riqueza e desenvolvimento. Esta é uma questão política, teoricamente devia estar em harmonia com a ética, mas com os interesses de toda gente em conjunto, exige-se uma abordagem mais pragmática.

    Em relação aos artigos de luxo, não sou contra quem os compre. Se alguém trabalhou para ter dinheiro e desfruta dessa situação para seu conforto, como podemos censurar? Eu gostava de comprar um BMW descapotável e ir de férias para a Polinésia Francesa, não seria uma má pessoa por isso. Se tivermos o azar de nascer na África num país em guerra, dificilmente teremos essas coisas, mas não deveria ser assim.

    Concordo em absoluto contigo em relação à verdadeira crise actual, é o défice ético o grande problema. Aposto que neste momento está muita gente a fumar o seu charuto e a ver com alegria a subida dos preços do petróleo.

  8. Aposto que neste momento está muita gente a fumar o seu charuto e a ver com alegria a subida dos preços do petróleo.

    Eu, por exemplo…. :D

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