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Archive for Dezembro, 2008

Cadernos do Subterrâneo, de Fiódor Dostoiévski (ed: Assírio & Alvim):

Sujo, doente, húmido, negro, depressivo. São os melhores adjectivos que posso usar, para caracterizar este conto. Um conto sempre na primeira pessoa, onde o narrador apresenta a sua vida a um público fictício. Um público que acabamos por ser nós, mas que ao mesmo tempo não somos. O que torna a primeira parte um monólogo.Um  monólogo desesperado e deprimente. Um monólogo de alguém que já morreu interiormente, há muito tempo atrás. De alguém que já não tem respeito por ninguém nem por si mesmo. Sabe no que se tornou, tem nojo e repulsa por si mesmo. É arrogante e sente-se superior a todo e qualquer indivíduo com que se cruza. O narrador quer ser amado como um Rei, pelos que o rodeiam. Quer sentir que os outros precisam dele para poderem viver. Neste primeira parte, o narrador fala de tudo o que lhe vem à cabeça, num gesto de devaneio. Fala da sua condição, de como lhe sabe bem estar no seu “subterrâneo”. De ter estado calado durante 40 anos e agora sentir uma necessidade louca de falar, a este público fictício. Fala da vingança, fala da condição humana. Existencialismo puro e de certa maneira um pouco adolescente, devido à falta de lucidez e imaturidade do narrador. A primeira parte termina com o desejo de confissão, por parte do narrador, de uma história ao público.  Somos levados para alguns anos antes deste monólogo. À medida que o enredo avança, Dostoiévski mergulha-nos na paranóia anti-social da sua criação. Medo, nojo são-nos apresentados pelo narrador. O desejo da aprovação por quem o rodeia, torna-se tão grande que ele faz disso a sua vida. Mas a condradição aparece, precisamente por isso, e a confusão estabelece-se na cabeça do narrador. A dualidade ódio/aprovação é tão grande que ele não sabe o que quer. Se por um lado se sente superior, intelectualmente, aos seus pseudo-inimigos, por outro lado procura desesperadamente a sua aprovação, a sua convivência. A presença de uma profunda depressão aliada com loucura, faz com que tudo o que seja feito à sua frente seja transformado em algo malvado, estúpido e ofensivo para ele. Despido de adjectivos bonitos, este conto mostra-nos, com uma descrição negra e bem real, até que ponto a decadência de um homem chega.

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books

O Nelson pediu-me um top dos filmes de 2008, mas eu dou-lhe melhor. Um top, subjectivo obviamente, dos 10 melhores livros de sempre. Mas eu ainda faço melhor, eu não dou uma lista, dou várias. Enjoy. E agora dou o meu top5, porque as minhas leituras são muito limitadas:

1. A morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstoi

2. Górgias, de Platão

3. A metamorfose, de Franz Kafka

4. O banquete,  de Platão

5. A briga entre Ivan Ivanovich e Ivan Nikiforovich, de Nikolai Gogol

 

P.S: Anna Karenina, de Lév Tolstoi e O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald  aparecem ali algumas vezes, será coincidência?

P.P.S: Obrigado pela sugestão, inconscientemente, do Gatsby. 

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Noah…ii

“Porra que medo. Ando de um lado para o outro, sem nada definido, mas como se tivesse algo já muito bem planeado. Na realidade não tenho nada planeado, mas penso que tenho. Ando a evitar continuar a ler aquilo. Fico possesso, fico diferente. Fico frio e desumano. Sem sentimentos e perturbado. Que medo! Já tinha ficado antes, com outros livros. Acabava sempre por os evitar por um momento, mas lá me domavam e me punham ali quieto. Ali parado a testemunhar o que aquelas frases queriam contar. Ahhh caraças, às vezes até tinha que voltar atrás porque nem percebia o que estava a ler. Mas isto começou-se a manifestar à alguns anos atrás, quando era mais jovem. Ficava possesso. Normalmente nas manhãs frias, que poético, quando estava sozinho, na escola, à espera de alguém. Porquê isto? Porquê aquilo? Não faz sentido nenhum isto, faz sentido aquilo. Parado, no frio, sozinho. Agora é com estes livros que me fazem pôr em causa o próprio chão que piso! Que medo! Aquilo pelo qual nascemos: crescer, estudar, trabalhar, procriar, morrer. Mas porquê? Porque tem que ser assim? Tudo pré-estabelecido e planeado antes até mesmo de termos nascido. Fará sentido dizer que somos livres, desta maneira? Fará sentido viver algo planeado por alguém que não existe. Não vale a pena olhar para o lado. É isto e agora! Ou fazemos, ou andamos para aí a vadear. Que tristeza. É isto que eu testemunho quando ponho os olhos naquelas palavras: a verdade. O que nos rodeia, o que nos faz crescer e viver, mas que nem damos conta que ali estão. E depois eles mostram-me que não passo de um palhaço. Que vivo algo que deveria ter sido planeado por mim, mas que não foi. Mostram-me isto os livros. É por isso que vejo televisão, como um chocolate, volto para a cama e volto a ver televisão e vou à casa de banho. E continuo neste andar até pensar nisto: antes infeliz e consciente que pateta e feliz. Assim nasce um filósofo, assim morre uma pessoa.

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Noah

“Ando assim com uma espécie de pontada nas costas. Que chatice do caraças. É que às vezes até fico sem ar, o que torna já uma dor má, bastante medonha. Olha eu ficar sem ar, Deus me livre. Também ando a fazer pouco exercício, se calhar é por isso. Fica mal habituado o corpo, e depois dá nestas coisas. Mas também nunca liguei muito ao corpo. Quer-se dizer, preocupo-me! Mas não é muito. Preocupo-me até à barreira da doença, mas não até à linha da beleza. Vejam se me faço compreender: preocupo-me em ser saudável, mas não em ter um corpo esbelto. Perceberam? Bah, também não interessa se perceberam ou não. É que isto do corpo é algo que me fascina, mas só há pouquíssimo tempo comecei a pensar nisto. Porque isto traz graves implicações, porque estando a questão a falar do corpo, a ironia, é que esta trancende esse campo. Ora vejamos: quantas pessoas baixas, ou gordas, ou feias são gozadas por o serem? Esta questão traz graves problemas psicológicos a quem as sofre. Eu penso porra, a pessoas geralmente fazem isto sem pensar, e às vezes até aos conhecidos, sem imaginar a repercursões dessa atitude. Eu diria que rebaixar alguém, por ser algo que não tem culpa de o ser, é a forma mais grotesca de agir do ser humano. É o acto mais fútil que existe. E digo-vos mais… Ahhhhhhhhh, porra! Lá vem a pontada outra vez. Ora bem, mas isto também faz mal a quem se exercita demais. É como a arrogância que invade um escritor que alcançou grande fama. O homem até pode escrever bem, não o rebaixo por isso nem pensar, até porque bons escritores nunca são de mais. Mas e a família? Aturar um traste assim? Deus me livre aturar assim um palerma. Pois bem, um homem que dedique tanto tempo ao corpo, fica um autêntico narcisista. Raios partam um palerma assim. É que não tem ponta por onde se lhe pegue. E depois, um homem que dedique tanto tempo ao corpo, pode ser muito esbelto, isso mais uma vez não lhe tiro, mas se quer ter alguém assim ao seu lado que seja só na cama, porque na conversa o que se aproveita é o café que se está a tomar na hora. Mas nem falemos mais nisso, tanto por me aborrecer, como também por me estar a doer as costas”

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O que é este conceito? De que nos fala ele? Verdade para quem? Enquadremos, antes de mais, o assunto. Falo de verdades empíricas, por que das lógicas, nada há a dizer. Um cálculo matemático aqui, é igual ali. Mas e as outras verdades? Em que é que nos apoiamos, para fazer valer a nossa perspectiva? Senso comum? Experiências passadas? Educação? Mesmo que mil pessoas afirmassem o mesmo, nada significa que seja verdade. De onde provém essa verdade certa? Essa verdade inquestionável sem inimigos aparentes? E apenas desfeita aos olhos dos tolos? Será que existe? Se calhar estou a colocar mal as perguntas. Se calhar o problema é ainda mais antigo.

Será que faz sentido procurar uma verdade certa, inequívoca, inquestionável e real, para todo e qualquer ser?

Até que ponto é racional tentar unir todas as perspectivas numa? Por que haverá necessidade disso? Por que terei de fazer ver aquela pessoa que isto é correcto e aquilo é errado? O que me leva a crer que eu estou certo no que acho? Nada me leva a crer. Pois bem, faz sentido dizer que isto é errado e aquela pessoa dizer que isto é certo. Faz todo o sentido, porque ninguém consegue provar que por a + b= c assim é. Diferentes vidas, culturas, experiências, educações, vidas. Tudo faz sentido. E a verdade não é mais que uma realidade filtrada por tudo o que faz de mim o meu Eu. Se aquela pessoa existe e por ser diferente de mim em tudo o que nos faz distintas, também faz, do mesmo modo, sentido que a verdade dela seja tão distinta da minha, como o meu Eu é distinto do Eu dela.

Feliz Natal

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Não há fórmulas nem espécie alguma de entendimento certo ou eficaz, ou o que lhe quiserem chamar. Não há regras, nem normas para se alcançar o objectivo pretendido. Estou cada vez mais certo que o ser humano, devido à sua complexidade existencial, é um ser sozinho. É um ser que cria artifícios à sua volta, porque também precisa disso, para conseguir sobreviver. Não há nenhuma relação saudável sem cedências. Não há seres humanos que “encaixem ” perfeitamente. Porque somos diferentes, porque somos únicos, com a nossa brilhante, e às vezes infeliz, subjectividade. O nosso Eu, é definido e actualizado todos os dias, para cada escolha que fazemos. Não há relações humanas, e nisso penso que estamos todos de acordo, perfeitas. Simplesmente porque é impossível arranjar dois indivíduos iguais, com as mesmas ambições, princípios, maturidade e um sem número de outras características que fazem de nós únicos. 

Não é a primeira vez que falo deste assunto, de certo que não será a última. É algo com que lidamos todos os dias e , também, todos os dias cedemos ou fazemos ceder. É  a flexibilidade que torna este “jogo” relacional especial e intrigante. Porque não há fórmulas, e muito pouco em que nos possamos apoiar, faz dele, o ser humano, um ser pouco, ou nada, lógico. O que nos é introduzido e é ensinado, tanto pela educação social como pela educação empírica, pode ser chamado de senso comum. Mas até este senso comum, que pode ser chamada de “guiding line”  para estas relações, perde poder se lhe mudarmos o contexto cultural. Porque o que para mim é certo ser considerado um insulto, noutra cultura pode não o ser. Mas se não há nada onde nos apoiarmos, como podem haver estas relações? Não consigo dizer ao certo como. Mas talvez, não tenha que haver uma resposta única, ou até mesmo existir uma. Talvez a utópica ideia de relação saudável, ou perfeita, não passe disso mesmo. Porque precisaremos de um caminho racional e lógico, com regras, métodos e passos a seguir, um verdadeiro método científico? Porque se por um lado o ilógico associado às relações humanas existe, é também com o ilógico que elas se criam e se mantém.

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Sossegadamente ia passando as folhas do jornal, já tinha cortado a televisão há bastante tempo. Chamava-lhe “cultura para idiotas” e por isso mesmo actualizava-se daquela forma. A empregada tinha ordens para lhe trazer o jornal todos os dias. Ela aparecia de manhã, juntamente com o jardineiro, para tratar da velha mansão da família. Com o tempo, Ian, tinha-se desleixado na sua manutenção. Mas a partir do momento que Ian não conseguia ver a paisagem do seu quarto, devido ao “maldito carvalho americano“, tinha contratado um jardineiro. Apesar de já não ser nenhum jovem, com força para subir uma escada e domesticar o carvalho, Ian, após ficar sozinho, tinha perdido também vontade de fazer quase tudo. Daí ter contratado também a empregada que lhe fazia as refeições e tratava da limpeza da casa. Ian, anos antes, fazia questão, e como ficava cheio de orgulho, de ser ele a tomar conta da casa, enquanto a mulher tratava das suas coisas. “É uma arte. Quem diz o contrário é um mentiroso hipócrita. É preciso amor, dedicação e originalidade, para saber cozinhar bem. Dá-me gosto, mais gosto que ganhar um projecto lá na empresa. E como me dá prazer ver o meu anjo deliciar-se com as minhas iguarias“. Tais pensamentos atormentavam-no às vezes. Tormento por estar sozinho. Tormento por não ter nada com que se agarrar à vida. Tormento por estar a morrer. ” Todo o ser morre sozinho. Mas estou convencido que na vida, assim como na morte, o mesmo acontece.”

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