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Archive for the ‘Histórias’ Category

Ian…iv

Farto de estar em casa, farto de ver sempre as mesmas paredes. Os restratos que o faziam lembrar dos velhos tempos com a mulher. Das viagens, dos momentos bons, das histórias, da vida. Ian pegou no chapéu e saiu de casa. Sentia-se morto por dentro, mas esta sensação já não era de agora. Ian sempre vivia pelo amanhã e ele já tinha previsto a hipótese de a mulher morrer primeiro que ele. Antes sequer dela morrer, Ian, já se ia matando aos poucos. Não fazia sentido, agora que o acto estava consumado, pensar no amanhã hoje. Ian queria mudar isso, essa forma de pensar, essa forma de estar na vida. Mas, grande parte das vezes, nós humanos, aspiramos a coisas que são superiores a nós. “Nasci assim e sempre fui assim, não é um vício, não é algo que magoa os outros, é algo que me magoa a mim, é algo que sempre fez parte do meu ser, não consigo mudar isso. Faria sentido mudar agora? Agora na decadência? Pior que isto é impossível.” Ian, dirigiu-se ao jardim. Já há alguns anos que não ia lá. Estava bastante diferente, tinha sido dividido por temas, de um lado uma zona de flores com um coreto mesmo no meio, noutro lado estava um lago com umas colunas romanas à volta. “Racionalizar a beleza. Pegar nela e fazer dela uma matriz. Aqui ponho isto, ali aquilo, assim desta e da outra maneira. Tudo categorizado e nada pode ficar à toa. Não faz sentido, a natureza é bela, por não ter leis, por ser selvagem, por ser livre. Sem entraves, sem regras, sem nada que condicione a sua vida“. Ian olhou para a relva, ali dividida por caminhos em paralelo. Apenas sobravam alguns metros quadrados de relva e uma árvore, qual ilha no meio do oceano, rodeadas pelos caminhos. Ian olhou para ela, tão isolada, tão sozinha, e sentou-se nela. Iria parecer estranho, para qualquer pessoa que por ali passasse e o visse, mas ele já tinha decidido. Sentou-se e ficou a olhar para o céu azul, depois tirou o chapéu e, com cuidado e estima, colocou-o ao seu lado. Deitou-se, por fim. Abriu os braços, suspirou e fechou os olhos. Começou a pensar na sua vida. Todos os anos que esteve a estudar, todos os anos que passou a trabalhar. “Para quê? Para quê tudo isto? Serviu-me de alguma coisa? De nada, estou aqui sozinho e sem merda nenhuma. Sem nada de  me orgulhar. Só vazio, só escuridão. Dos meus sonhos, dos meus desejos, aqueles que começamos a construir desde pequenos e que, à medida que crescemos, ou vamos esquecendo, ou começamos a descer à terra e ver que nunca os vamos realizar, o que me sobrou? O que é que consegui realizar? Desde os mais pequenos e sem nexo, até aos mais dispendiosos e aventureiros? Quantos realizei? Valeu a pena todo aquele estudo e dedicação ao trabalho? Será que no final, ao olharmos para trás, valeu a pena? Mais um carro, mais uma televisão, mais uma casa, mais um objecto fútil e sem qualquer sentido. É para isto que vivo? Para me gabar de ter um carro melhor? E para no final, quando já estou na cama, conciliar o meu novo automóvel com a vida patética que tenho? Era esta a vida que me estava reservada? Eu acho uma piada, quando alguém diz que é livre, que faz o quer da vida. Farás mesmo o que queres da vida?

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Adam…iii

“E olho e sinto-me enojado… indignado… estupefacto… Parece que à medida que crescemos, não evoluímos…. Ou melhor, evoluímos, mas negativamente. Mais ignorantes… mais egocentristas… mais virados para o que é nosso e só nosso. Sinto-me embrutecido, sem paciência para merda nenhuma… Olho e fico parvo e não aguento e expludo cá dentro… E paro para respirar um pouco… Porra estou-me a tornar pior que eles… Parados, gelados, sem nada na cabeça… Bestas sexuais que não têm sentimentos… Será que estou a ficar assim? Sem nada para oferecer, só nojo e injúrias? Sem nada… Quero mais, muito mais… Pôr tudo de lado… o vulgar, o comum, as balelas retrógradas e vectorizadas à estupidez, sem qualquer sentido, sem qualquer pudor que me assaltam os ouvidos por qualquer lugar que passo… O parar no tempo, o “deixa andar”, estou farto… disso… Ficar um dia inteiro deitado na cama…. uma semana… um mês… uma vida… Abandonar a vida por completo e “deixa andar”… Passivos e amorfos…. Como poderei viver assim? Sem objectivos? Sem merda nenhuma?! Como pode alguém viver morto? Sem nada para fazer, sem nada para se viver? Viver desta forma?! Assim?! Sexo, bebidas, ociosidade servida fresca todos os dias?  Que merda… Que nojo… Detesto-os e começo-me a detestar…”

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Noah…iv

“Não tem que ter uma explicação… Nem uma razão.. Não vale a pena tentar procurar tal coisa… Não faz sentido, neste aspecto não faz sentido… Para quê procurar uma resposta? Conformemo-nos com o que temos… O sentimento aparece e desaparece e desenvolve-se e dissolve-se, assim do nada, assim do tudo… Sente-se cá dentro, não é preciso procurar uma explicação lá fora… Sente-se a compreensão, sente-se a afinidade, sabe-se imediatamente se é “isto”, ou “aquilo”. É estranho, talvez daí procurar respostas… Mas respostas que ninguém pode dar… Só há uma coisa certa e que verdadeiramente pulsa cá dentro: o sentimento… Roi-nos até não poder mais….Dissolve-nos… Põe-me a mim e a ti de joelhos… “Mas que se passa aqui pergunto eu?” E não se ouve resposta… Não se ouve nada… O silêncio misturado com o sorriso e o sentimento é suficiente… É resposta suficiente para eu parar de perguntar e aceitar… Aceitar o que se passa… Aceitar que por muito que procure, não há resposta… Nem saberia que espécie de resposta poderia vir… Nem imagino… A soma desta qualidade com aquela, subtraindo os defeitos ao somatório da soma, é esta a resposta que queres? Racionalizar um sentimento? É impossível… o Amor não é assim, não faz sentido vê-lo assim, não interessa vivê-lo assim… No final: “não digo parvos, mas (perdidamente) apaixonados”…”

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Noah…iii

“Há talvez cerca de um mês que já penso no suicídio… Nunca teria passado pela cabeça tais coisas. Sempre achei que é um profundo acto egoísta. Egoísta para quem fica….mas não aguento mais isto… Parou por mais ou menos dois meses, mas voltou há poucos dias… Sinto falta de algo que já ninguém, nem nada, me podem oferecer… Sinto-me arrasado por algo, algo que nem eu sei bem o que é. É essa incógnita que me tem arrastado cada vez mais fundo… Não sinto vontade para continuar com esta ilusão… Sinto que vou chegar ao final da minha vida e vou olhar para trás e não vou ver nada….Trabalho, dor, problemas… Não vou poder dizer: “Eu fiz isto! Foi a maior experiência da minha vida e sinto-me grato por estar vivo, para a ter podido viver”. É isso que talvez me faça falta… Quebrar com esta merda toda… A rotina, o condicionalismo, a vida planeada não por nós, não pelos nossos pais e família, não pelos nossos amigos, mas por toda a gente… Uma vida que eu não quero para mim, mas que não tenho maneira de lhe fugir… Vontade de largar tudo e nunca mais voltar… Vontade de conhecer todo o mundo… Vontade… Talvez a morte não seja a resposta, por agora, talvez fosse o escape mais fácil… Escape desta vida pré-estabelecida… Estou sempre rodeado por pessoas e por gente que eu sinto que me quer bem, mas digo-vos… sinto-me tão sozinho… Acho que o ser humano é o animal mais solitário que existe… Festas, grupos, amigos, família, ceitas… No final estamos completamente sozinhos e se existe alguém que nos compreende, somos nós mesmos… Amigos vão, Família vai, mas nós estamos sempre presentes… Se dependo de alguém é de mim mesmo… Sempre pensei que poderia ter ali alguém, algures, que me pudesse ajudar a “carregar o fardo”, e tive e foi-se, e depois veio outra e foi-se, e quem ficou no final? Eu e apenas eu… Pegar nas coisas e desaparecer, para talvez um dia voltar…”

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Without sense…

desert-night-sky-at-yulara

Voltaste… Pedi-te para parares. Mas sempre consegues o que queres… Não, não te percebo. Não te compreendo. Indiscriminadamente perverso. Tu, tu e mais tu! Nem acredito que voltaste a fazer o mesmo. Eu pedi-te, como te pedi… Como te implorei para parares. Ouviste? Percebeste o que eu disse?  Não…Claro que não… Poderia ser de outra maneira? De outra maneira menos fria? Mais real? Mais MINHA?!  Pedes-me conselhos e eu dou-te. Pedes-me ajuda e lá estou eu. Peço-te paz e tu dás-me guerra. Dás-me dor e desespero. Desespero que me destrói… Eu nunca pensei que alguém pudesse chegar a isto! Nunca! Dor, choro, desespero, culpa. E agora, que sobrou de mim? Eu não sinto nada…. Como pude chegar a isto? Frio por dentro é só isso que sinto…. Um frio que me invadiu e que tomou posse de todo o meu ser. Que me matou…Matou toda a vida que ainda restava… Que mais queres?? Eu não percebo, eu não sei o que queres… Eu não tenho mais nada para te oferecer… Nem sonhos, nem vontades, nem nada… Ficaste com tudo, mas estás à espera que nasça algo, para voltares a confiscar… Sempre neste ciclo egoísta e mesquinho.. Que eu nem acredito que tu o possas controlar… Tenho pena de ti… Tenho pena por nem tu saberes o que queres ao certo… Tu que fazes parte de mim…Revejo-te em tudo o que faço, sim por que tu fazes parte de mim, e sinto pena. Pena de ser isto… frio… tanto frio.

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“Oh então estava eu ali a olhar e apareceu-me aquele traste. Aquele jumento que sempre me maltratou! Passou por mim e nem me cumprimentou! Que atrevimento, que descarado! Desde a escola que sempre foi assim: arrogante e de nariz empinado, um autêntico palerma. Deve-se julgar como o outro, Rei de Espanha, pobre tolo! Sempre fui superior a ele e aos seus amigos idiotas. Sempre a bajular e a meter nojo! Nunca tive condições ( quem mas poderia dar?) económicas para rivalizar com ele. Sempre a gabar-se disto e daquilo. Que raiva! Ahhhhh….a pontada. Tenho que me acalmar, mas não consigo! Que raiva! Desgraçado sempre com inveja de mim. Sempre soube que se fosse para o vencer seria pelas notas lá na escola. Para quê? No final de que me serviu? De merda nenhuma. Vivo neste buraco há dez anos! Dez anos! Safou-se logo o burro, arranjou um emprego jeitoso, cortesia dos amigos dos pais e pronto, em vez de se fazer à vida, a vida fez-se a ele. E é assim!  Passa por mim, ele e os palermas que o acompanham, e nem um “olá”. Pufff….Enfim nem vale a pena ter relações com gente dessa laia. É isso mesmo, tenho toda a razão! Não me diz nada, porque sabe que não estamos ao mesmo nível. Porque sabe que nem conseguiria ter uma conversa literária comigo! Ah porra lá para isto e para essa gentinha pequena. Pequena em tudo!  Em nível e principalmente em cultura e educação! Nem a porra de um jornal lêem! Ignorantes analfabetos! Julgam-se com muito dinheiro e muitas posses e blablabla e nem o raio de uma carta sabem escrever! Que comédia que estupidez. Fico muito melhor sem eles eu e o meu buraco.”

 

Em memória de Gógol e de Dostoiévski. 

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Adam…ii

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“Isso mesmo. Exactamente! Espezinha, mas não pares! Nem penses em quem está envolvida, nem em nada. Avança vadia, sem problemas. Pega nela e maltrata-a. Nem a conheces, mas podes continuar.  Poderei impedir-te? Poderei calar-te? Poderei matar-te? Não, nunca. Viverás aí sempre. A roer. A chiar e a gemer. A conspirar e a maltratar. A odiar tudo o que te aparece à frente. Não pensas em nada, egoísta. Só em ti e na tua causa sem objectivo senão torturar e matar. Queres tudo para ti…e ninguém te faz frente! Nunca ninguém fez, não é verdade?! Vais continuar até conseguires o que queres. Eu sei! Eu sinto-o cá dentro! Paras quando…..deixa-me lá pensar… quando tiver que ser , não é?! Sem data, sem aviso, sem merda nenhuma. Tu e só tu. A comeres-me as entranhas até eu ficar despido de tudo. De sentimentos, de emoções, de vontades, de desejos, DE TUDO O QUE CONSEGUIRES ENGOLIR! Mas força, ninguém te impede. Eu estou quieto e gosto de te observar. De te estudar até ao mais infimo detalhe. És minha, eu criei-te! Mas que estranho caso, quando a criação manda no criador. E o manipula e o mata à sua vontade. Uma autêntica marioneta. Sim, é isso mesmo! Uma marioneta. Fria, de madeira, sem vida, sem nada. Que tu pegas usas, brincas e depois metes num canto!  Num canto frio e sujo. Mas que em merda nenhuma se compara ao estado da minha mente, depois de me tocares. Depois de me violares sem parares! De cuspires em mim! De dizeres que eu te meto nojo! ( Onde já se viu a criação a desdenhar o criador?) De ser um verme arrogante! Que sou um traste, pior que tudo e que todos! De ser mesquinho e sujo! Um merdoso que faz tudo por um bocadinho de atenção! Sim, insulta-me! Isso mesmo, já não te posso parar e não. Usa-me até não teres mais vontade. Faz o que quiseres de mim! Já não tenho vida. Já me roubaste tudo o que havia, nada ficou. A não ser o frio, a madeira e a morte.

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